Pular para o conteúdo principal

Você sabe por que o Crepe recebeu o nome de Suzette?

Crepe Suzette

Curiosidades da cultura gastronômica

Uma das coisas que mais atiça a minha curiosidade é saber porque os pratos recebem nomes próprios. É muito comum ver ruas com nomes de pessoas que fizeram diferença e foram importantes para a cidade, mas na gastronomia muitos dos "batismos" não são por causa do chef que inventou tal prato e muito se deve à situação ou momento que foi criado. Esse delicioso crepe aponta algumas versões, entretanto todas são interessantes. 

Primeiro de tudo: o que é Crêpe Suzette?

É uma sobremesa. Considerada uma panqueca bem leve e fininha que é servida dobrada em um molho de laranja, limão (alguns colocam), açúcar e manteiga com licor de laranja ou conhaque e flambada à mesa. A receita original usa o Licor de Curaçao (de laranja amarga) e, posteriormente, o licor Grand Marnier foi adotado à receita que também é um licor de laranja feito de conhaque Cognac.

Origem incerta...

Versão 1: 

Tudo indica que foi em 1896, no Café de Paris em Monte Carlo, pelo chef Henri Charpentier (primo do famoso chef August Escoffier) que preparava a sobremesa para ao Príncipe de Gales. Este estava acompanhado por uma senhorita chamada Suzette. Posteriormente, o chef abriu um restaurante nos Estados Unidos e talvez tenha sido ele quem os fez parecer a essência da sofisticação para muitos americanos durante os anos de 1930. Ele adorava contar aos convidados de seu restaurante sobre o café da manhã, memorável, no terraço do Café de Paris em Monte Carlo: 

"Eu tinha apenas 16 anos ... e estava servindo o Príncipe de Gales ... depois Eduardo VII ... Entre os comensais nas mesas do Príncipe estava uma linda garota francesa chamada Suzette ... Sua Alteza pediu crepes ... Eu misturei o molho e acrescentei uma mistura de conhaque minha. Quando o fiz, a chama da travessa incendiou acidentalmente os cordiais ferventes. Fiquei envergonhado, mas não demonstrei. Derramei o molho ardente sobre os crepes, como se as chamas tivessem sido acesas de propósito. O príncipe provou, sorriu e disse: Henri, o que você fez com esses crepes? Eles são excelentes! Fiquei emocionado e me ofereci para nomeá-los em sua homenagem. Mas ele recusou e disse: devemos sempre lembrar que as mulheres vêm em primeiro lugar. Chamaremos essa coisa gloriosa de crepes de Suzette".

Versão 2: 

Em 1897, havia uma atriz que atuava como empregada doméstica em uma Comédie Française. Suzanne Reichenberg era seu nome de batismo e o artístico era Suzette. Uma das passagens em cena era o momento em que sua personagem servia crepes durante uma refeição. Quem fornecia os crepes para a peça era Monsieur Joseph,  dono do Restaurante Marivaux, que era vizinho do teatro. Para atrair a atenção do público, bem como para aquecer os crepes para os atores que deviam comê-los noite após noite, os crepes eram flambados (cozimento em chamas devido à adição de álcool em uma panela quente). Um tempo depois, Joseph mudou-se para o Savoy Hotel em Londres e passou a servir a famosa sobremesa para os novos clientes ingleses. 

Versão 3: 

Os crepes foram preparados pela primeira vez em homenagem ao Eduardo VII, rei da Inglaterra (Príncipe de Gales), por Escoffier. Na ocasião uma vendedora de violetas se aproximou do rei, a qual tinha o nome de Suzette, e ele decidiu batizar a sobremesa com o nome da jovem.

A receita:

A primeira referência impressa a respeito do crepe foi feita pelo chef Escoffier em Modern Cookery (1907), na qual ele chama de panquecas de Suzette e não são flambadas. Esmiuçando a internet, encontrei a receita original, em francês, por Assietes Gourmandes by Chantal Food'n'Travel. Vamos colocar a mão na massa?

Ingredientes para 12 pessoas:

  • 250 g de farinha, 
  • 3 ovos, 
  • 500 ml de leite, 
  • 40 g de açúcar, 
  • 2 colheres de sopa de Curaçao (ou Grand Marnier)

Para a manteiga de tangerina: 

  • 60 g de manteiga amolecida, 
  • 60 g de açúcar, 
  • 4 tangerinas para suco e raspas, 
  • 2 colheres de sopa de Curaçao (ou Grand Marnier) 

Preparo...

Do crepe: despeje a farinha em uma tigela, fazendo um buraco no meio e acrescente os ovos e açúcar, incorporando aos poucos à farinha. Adicione o leite e o licor. A massa deve estar perfeitamente lisa e sem grumos. Deixe repousar 2 horas.

Da manteiga de tangerina: misture a manteiga amolecida com o açúcar e o licor. Em seguida, adicione o suco de tangerina, as raspas e misture. 

Massa descansada, manteiga de tangerina feita, hora de fazer os crepes: esta receita diz que é pra cozinhar os crepes em uma panela levemente untada e deixar dourar dos dois lados - Dica MG: se tiver uma frigideira antiaderente ou uma panquequeira, melhor! Em seguida, espalhe os crepes com a manteiga de tangerina, dobre em 4 e se necessário cubra com um mais pouco de manteiga "Suzette". 

Já em outro site francês, Meilleur Du Chef, mostra o passo a passo para flambar a receita: 

De preferência em uma panela de cobre (se não tiver, tudo ok!) despeje o açúcar em fogo moderado. Depois de uns minutos o açúcar começa a derreter e vira uma caramelo. Tire a panela do fogo, acrescente o suco de laranja (ou tangerina) espremido e espere que o caramelo dissolva no suco. Leve a mistura novamente para ferver e derreter o caramelo completamente e adicione o suco de limão espremido. Deixe reduzir por alguns minutos.

Adicione a manteiga cortada em pedaços, misturando cuidadosamente com uma espátula para que seja incorporada ao molho. Adicione o licor Grand Marnier, leve para ferver e flambe trazendo um fósforo para a borda da panela. Coloque o crepe no centro da panela de modo a embeber com o molho Suzette. Vire suavemente o crepe para embeber o segundo lado. Dobre o crepe ao meio duas vezes para ficar dobrada em quatro (em forma de triângulo). Repita o procedimento com os outros crepes. No prato, decore com raspas de laranja cristalizadas. 

Então, eu cheguei a ler uma versão que o molho foi flambado com espumante, mas nem levei isso em consideração porque o grau alcoólico é baixo a ponto de não acontecer a magia das chamas durante o preparo.

Harmonização

A minha dica de harmonização para esta divina sobremesa é com um Moscatel de Setúbal ou do Douro por causa do aroma da laranja confitada que esses vinhos apresentam. Também pode ser um Vinho do Porto Tawny envelhecido, pelo menos 10 anos, por causa das notas de especiarias e caramelo. E como terceira opção, os deliciosos Sauternes pela presença das notas cítricas e de marmelada.

 

Agora que já conhece todo o procedimento, nada impede que você faça as suas adaptações e batize a nova invenção com o seu nome ou em homenagem à alguém especial.

Fontes: Food Timeline e Chef Maurício Barufaldi

Imagem: Egg Recipes

Comentários

Popular Posts

Restaurante Cais da Villa

  O cais mais chique 'da' Vila...Real.  Depois de 4 anos morando aqui, sempre tinha ouvido falar sobre esse restaurante, entretanto, a vida de estudante não permitia o investimento financeiro aos comes e bebes do estabelecimento.  Sim, Vila Real é movida pela Universidade. São mais de 7.000 novos alunos que chegam anualmente para estudarem aqui. Durante a pandemia, virou uma cidade fantasma. Sem praxes e festas acadêmicas, sem agito, sem nada.  Todavia, eu tenho que admitir, os universitários sacodem tudo e levantam a poeira. Portanto, o público-alvo do Cais da Villa não é voltado para eles. É realmente um restaurante caro para o interior do Norte de Portugal. Talvez se estivesse em uma cidade mais cosmopolita e turística como Lisboa, Porto, Coimbra ... daria para entender, mas em VR?  Enfim, eu fui! O Cais da Villa está situado na estação ferroviária, em um antigo edifício histórico com mais de 100 anos: "Neste espaço de ambiente informal funciona o restaurante à carta,

É Beef Wellington, Boeuf en Croute ou Steig Wellington?

A cultura gastronômica do bife mais famoso Esses dias eu, sem querer, vi um vídeo do chef francês Claude Troisgros no qual ele ensinava um adolescente a fazer o Bife Wellington. Claro que eu assisti o passo a passo todo e o meu apetite abriu na hora! Mas uma curiosidade surgiu: por que esse prato recebe o nome de Wellington? Quem foi Wellington? O que ele fez? É uma figura importante? E lá fui eu matar a minha curiosidade. Origem do prato Arthur Wellesley, primeiro duque de Wellington Para início de conversa, ou leitura, a origem do prato é incerta e não se sabe se é francesa, inglesa ou irlandesa. P ude encontrar um melhor aprofundamento informativo em The Food Timeline , além de receitas datadas em ordem cronológica através de uma linha do tempo e várias versões que recebem o mesmo nome. Tudo indica que existe uma contenção histórica a respeito da origem do Bife Wellington, entretanto, os historiadores apontam que o nome foi dado em homenagem a Arthur Wellesley, primeiro duque de We